A Aids como ela é
O vírus HIV segundo as maiores autoridades no assunto:
os próprios soropositivos
Uma doença mortal, com sintomas e formas de contágio incertas: assim a Aids era vista nos anos 80. O testemunho público de artistas doentes foi o começo da divulgação da enfermidade. Como os primeiros casos foram detectados em homossexuais, estava criada a relação direta da Aids com este grupo social.
Ilustram bem este quadro as histórias reais de personagens homossexuais - que descobriram a contaminação pelo vírus HIV neste período - relatadas nos livros: A doença, uma experiência (1996), do cineasta e pesquisador Jean Claude Bernardet que, como próprio nome já diz, conta as aflições e conflitos que vieram junto com a Aids de uma forma que leva o leitor para as horas marcadas pelo desespero, pavor e alívio vividas por ele; Cazuza- Só as mães são felizes (1997), em que Lucinha Araújo conta a trajetória de seu filho Cazuza, desde a infância passando pelo diagnóstico do vírus (1987) até sua morte em 1990 e Cartas- Caio Fernando Abreu (2002), livro organizado por Ítalo Moriconi com cartas trocadas por Caio com sua família e amigos e que apresentam relatos do escritor sobre o medo da Aids e de como ele passou a viver depois de receber a notícia de que "O Teste" deu positivo em 1994.
A doença, uma experiência
Ilustram bem este quadro as histórias reais de personagens homossexuais - que descobriram a contaminação pelo vírus HIV neste período - relatadas nos livros: A doença, uma experiência (1996), do cineasta e pesquisador Jean Claude Bernardet que, como próprio nome já diz, conta as aflições e conflitos que vieram junto com a Aids de uma forma que leva o leitor para as horas marcadas pelo desespero, pavor e alívio vividas por ele; Cazuza- Só as mães são felizes (1997), em que Lucinha Araújo conta a trajetória de seu filho Cazuza, desde a infância passando pelo diagnóstico do vírus (1987) até sua morte em 1990 e Cartas- Caio Fernando Abreu (2002), livro organizado por Ítalo Moriconi com cartas trocadas por Caio com sua família e amigos e que apresentam relatos do escritor sobre o medo da Aids e de como ele passou a viver depois de receber a notícia de que "O Teste" deu positivo em 1994.
A doença, uma experiência
No livro de Bernardet, o leitor é levado imediatamente a participar do cotidiano de um paciente com Aids e de toda a carga psicológica enfrentada por ele: suas emoções, crenças, carências e desejos; além de medo, insegurança com a auto-imagem, confiança e desconfiança da equipe médica e uma preocupação com o que as outras pessoas estariam pensando dele. O autor inicia contando sobre uma consulta em que o médico o indaga sobre quando ocorreu a contaminação e ele, a vítima de uma doença que ainda estava mostrando sua cara, não sabia como responder com certeza. Suspeitava que tudo tivesse começado com uma relação que teve em Paris, em 1984, momento "em que ninguém se preocupava muito, ninguém falava em camisinha...". Bernardet revela que não se importava em morrer logo, só ficava com medo dos "meses de agonia, cama de hospital, a tez embaçada, o olhar dos outros".
Cazuza- Só as mães são felizes
Cazuza- Só as mães são felizes
A imagem da Aids na época era mesmo esta: a de uma pessoa muito debilitada como descreve o crítico de cinema. Basta lembrar das imagens de Cazuza, na cadeira de rodas, muito magro e com a pele amarelada. O cantor, a primeira pessoa famosa a anunciar publicamente que tinha o HIV (fevereiro de 1989, no jornal Folha de S. Paulo) no Brasil, se tornou a representação da doença nos anos 80. Caio Fernando Abreu, numa carta de 1988, revela a impressão que teve sobre o cantor depois de assistir a um show: “lindo, vital, sereno. Mas você olha a cara dele e vê a cara da morte”. O escritor comunicou o seu público que era HIV positivo na crônica Carta para além dos muros, publicada no jornal O Estado de São Paulo em 21 de agosto de 1994, alguns dias depois de fazer o exame.
Ao contrário dos outros dois livros em que os sentimentos trazidos pela Aids são contados pelos próprios autores, a obra Só as mães são felizes apresenta o depoimento da mãe de Cazuza, seu desabafo, suas impressões e carga emocional para contar sobre uma enfermidade que estava tirando a vida de seu único filho. A dificuldade em se tratar a doença tanto no Brasil como nos Estados Unidos aparece claramente no livro, já que a família tinha recursos e conseguiu ter acesso a todos os avanços que estavam ocorrendo na luta contra a Aids. Um pouco antes da morte do cantor, foi montada uma espécie de UTI na casa dos pais. João Araújo, pai do cantor, conta as dificuldades com o tratamento: “em 1987, nem mesmo os Estados Unidos (...) tinham a menor idéia do que era essa doença. (...) as primeiras recomendações foram no sentido de não se comer no mesmo prato que o doente, usar as mesmas roupas, não beijar”. Lucinha, apesar de acompanhar dia-a-dia a piora no estado de saúde de seu filho, conta que ainda acreditava na cura da doença.
Cartas- Caio Fernando Abreu
Ao contrário dos outros dois livros em que os sentimentos trazidos pela Aids são contados pelos próprios autores, a obra Só as mães são felizes apresenta o depoimento da mãe de Cazuza, seu desabafo, suas impressões e carga emocional para contar sobre uma enfermidade que estava tirando a vida de seu único filho. A dificuldade em se tratar a doença tanto no Brasil como nos Estados Unidos aparece claramente no livro, já que a família tinha recursos e conseguiu ter acesso a todos os avanços que estavam ocorrendo na luta contra a Aids. Um pouco antes da morte do cantor, foi montada uma espécie de UTI na casa dos pais. João Araújo, pai do cantor, conta as dificuldades com o tratamento: “em 1987, nem mesmo os Estados Unidos (...) tinham a menor idéia do que era essa doença. (...) as primeiras recomendações foram no sentido de não se comer no mesmo prato que o doente, usar as mesmas roupas, não beijar”. Lucinha, apesar de acompanhar dia-a-dia a piora no estado de saúde de seu filho, conta que ainda acreditava na cura da doença.
Cartas- Caio Fernando Abreu
A idéia da obra Cartas é apresentar como foi a vida do escritor Caio Fernando Abreu que, por meio das missivas, mostra ao leitor um diário de sua vida. O ponto central não é a Aids, mas ela acaba aparecendo em diversas cartas, mesmo antes de ele saber que estava com o HIV. Há muitas passagens em que, escrevendo para amigos, Caio cita algum amigo ou algum amigo de um amigo que morreu por causa da Aids e, ele mesmo, faz a associação do contágio com o homossexualismo, prevendo que deverá se cuidar. “Bem, está hospitalizado (...) Diagnóstico: Aids. É então, quando essa peste começa a sair das páginas dos jornais para atingir pessoas conhecidas que você pára e pensa ‘meu Deus, a tal doença parece que existe mesmo’. E dá medo. Porque te ameaça no que você tem de mais precioso: a sexualidade. Medo, medo, medo.”
Entretanto, as cartas dão a impressão de que Caio considera a doença como algo que não o atingirá. Isso porque, em diversos momentos, ele fica doente, com gripes fortes, otites de longo tempo e aftas. Acaba procurando médicos (que não estão preparados para detectar a doença e, por isso, não o aconselha a fazer o exame) e responsabiliza qualquer outro fator, como a poluição paulistana, por seus problemas de saúde. “Na verdade, não sei se estou [com Aids]. Eles [os médicos] acham que não há absolutamente nenhum sintoma. Prefiro acreditar, claro.”
Impedimentos
Entretanto, as cartas dão a impressão de que Caio considera a doença como algo que não o atingirá. Isso porque, em diversos momentos, ele fica doente, com gripes fortes, otites de longo tempo e aftas. Acaba procurando médicos (que não estão preparados para detectar a doença e, por isso, não o aconselha a fazer o exame) e responsabiliza qualquer outro fator, como a poluição paulistana, por seus problemas de saúde. “Na verdade, não sei se estou [com Aids]. Eles [os médicos] acham que não há absolutamente nenhum sintoma. Prefiro acreditar, claro.”
Impedimentos
Além do preconceito em relação aos homossexuais, a Aids trouxe limitações aos pacientes. Cazuza, depois de assumir publicamente a doença, não conseguiu ter seu visto revalidado pelo consulado norte-americano. Bernardet precisou consertar uma prótese dentária, mas seu dentista, um pouco envergonhado, recusou-se a atendê-lo, alegando que seu consultório não estava preparado para os soropositivos, indicando, como recomendava a Associação dos Dentistas, que ele procurasse um profissional mais especializado. Caio também trata desta situação em uma de suas cartas de 1992 enviada da França, quando fala que Israel está proibindo a entrada de portadores de HIV.
Morte programada
Morte programada
Os personagens dos três livros se queixavam da idéia que as pessoas tinham de que os soropositivos teriam uma morte anunciada. Bernardet, ele mesmo, também faz essa associação quando está estressado, depressivo em conflito com seu trabalho (fazer um filme). Seu médico lhe diz: “Você se programou para morrer depois do filme e agora não sabe o que fazer com sua vida” .
Cazuza passou por este sofrimento ao conceder entrevista para a revista Veja. A capa da edição de 26 de abril de 1989 traz uma foto com o cantor bastante debilitado e a manchete: Uma vítima de Aids agoniza em praça pública. Lucina conta a revolta da família pela distorção dos fatos, falta de sensibilidade e pelo uso apelativo que a revista fez da condição de seu filho.
As leituras apresentam a Aids de uma maneira verdadeira, com depoimentos de HIV positivos que detalham, muitas vezes até de forma irônica, todas as mudanças físicas e psicológicas e as transformações na relação com a família provocadas pela doença. Os livros não se propõem a traçar um panorama da Aids no Brasil nos anos 80 e 90. Mas, de certa forma, vão nessa direção, porque ninguém melhor para ilustrar isso do que os próprios pacientes na sua busca desesperada pela aceitação social, pelos melhores tratamentos, novos medicamentos e, por que não, pela cura.
BERNARDET, Jean-Claude. A doença, uma experiência. Companhia das Letras: São Paulo, 1996 (68 p.)
ARAÚJO, Lucinha. Cazuza- Só as mães são felizes. Editora Globo: Rio de Janeiro, 1997 (400 p.)
MORICONI, Ítalo. Caio Fernando Abreu- Cartas. Aeroplano: Rio de Janeiro. 2002 (536 p.)
Nota: Esta resenha foi publicada na edição de maio de 2006 da revista eletrôonica Comciência. A versão acima passou por uma revisão.
Cazuza passou por este sofrimento ao conceder entrevista para a revista Veja. A capa da edição de 26 de abril de 1989 traz uma foto com o cantor bastante debilitado e a manchete: Uma vítima de Aids agoniza em praça pública. Lucina conta a revolta da família pela distorção dos fatos, falta de sensibilidade e pelo uso apelativo que a revista fez da condição de seu filho.
As leituras apresentam a Aids de uma maneira verdadeira, com depoimentos de HIV positivos que detalham, muitas vezes até de forma irônica, todas as mudanças físicas e psicológicas e as transformações na relação com a família provocadas pela doença. Os livros não se propõem a traçar um panorama da Aids no Brasil nos anos 80 e 90. Mas, de certa forma, vão nessa direção, porque ninguém melhor para ilustrar isso do que os próprios pacientes na sua busca desesperada pela aceitação social, pelos melhores tratamentos, novos medicamentos e, por que não, pela cura.
BERNARDET, Jean-Claude. A doença, uma experiência. Companhia das Letras: São Paulo, 1996 (68 p.)
ARAÚJO, Lucinha. Cazuza- Só as mães são felizes. Editora Globo: Rio de Janeiro, 1997 (400 p.)
MORICONI, Ítalo. Caio Fernando Abreu- Cartas. Aeroplano: Rio de Janeiro. 2002 (536 p.)
Nota: Esta resenha foi publicada na edição de maio de 2006 da revista eletrôonica Comciência. A versão acima passou por uma revisão.


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