sábado, fevereiro 17, 2007

O lado B da Medicina


"As fábulas clássicas contêm figuras arquetípicas:
heróis, vítimas, mártires, guerreiros.
Os pacientes neurológicos são tudo isso e - nas
histórias singulares aqui narradas- são também algo mais."
Prefácio de "O homem que confundiu sua mulher com um chapéu"


Ler um livro sobre casos clínicos escrito por um neurologista não chama a atenção de muita gente. Talvez a classe médica e, em maior volume, os próprios neurologistas poderão ter interesse por uma obra dessas.

Mas existe sim uma coleção de livros sobre casos clínicos de neurologia, escritos por um neurologista, que trazem uma leitura bastante agradável e surpreendente. Estou me referindo à coleção das obras de Oliver Sacks *, um neurologista que publicou nove livros, dentre os quais tive o prazer de ler: O homem que confundiu sua mulher com um chapéu (1985) e Um antropólogo em Marte(1995), editados pela Companhia das Letras.

Sacks conta suas experiências como médico com uma visão voltada para o paciente e não para a doença. Diferentemente do que estamos acostumados a ver, a relação dele com seus pacientes vai muito além das paredes do consultório: Sacks convive com eles, conversa atentamente, observa todas as reações que apresentam, troca idéias com familiares etc.

Muitas vezes, os casos relatados nem são de pacientes dele, são de pessoas que ele foi conhecer para entender determinada síndrome, como no ensaio Vida de Cirurgião, do livro Um antropólogo em Marte, em que ele passa alguns dias hospedado na casa de um cirurgião, portador da síndrome de Tourette, acompanhando o dia-a-dia dele: no trabalho, no trânsito, com a esposa e os filhos etc.

Essa é outra característica do livro: quebrar os estereótipos que se faz sobre uma pessoa com uma anomalia. Um antropólogo em Marte, por exemplo, mostra as capacidades que os autistas apresentam, como o dom artístico (música, desenhos) ou a facilidade espantosa com a matemática.

Nos ensaios, o leitor se depara com ciência, apresentada nos relatos das doenças, síndromes, anomalias; e se depara também com poesia, na narração que Sacks faz da vida de cada um.

É uma visão humanizada de casos que poderiam muito bem estar naqueles periódicos de artigos científicos. O fato de Sacks trazer isso ao público leigo, além de apresentar histórias surpreendentes, traz um outro lado da medicina: o da valorização da singularidade do paciente.


*Oliver Sacks nasceu em Londres em 1933. Mora nos EUA e é professor na Albert Einstein College, de Nova York. É autor das obras: Enxaqueca (1970), Tempo de despertar (1973) - inspiração para o filme homônimo, A ilha dos daltônicos (1997), Vendo vozes (1989), Tio Tungstênio (2001), Com uma perna só (1984) e Oaxaca Journal (2002) - sem edição no Brasil.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Estou lendo o livro Um Antropólogo em Marte e achei seus comentários sobre um dos casos do livro.

Gostei da sua página!!!Muito boa \o/

Luciana.

11:40 AM  

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