terça-feira, janeiro 27, 2009

O cão foi para a telona


Assisti ao filme "Marley e eu" e confesso que me surpreendi. Claro, não estava esperando uma grande produção, mesmo porque a história não permite tanto. Mas apesar de simples, é divertido e até emociona.


A maior diferença entre o livro e o filme é que o primeiro faz jus ao nome e tem como tema central e destaque o próprio cão em todos os capítulos. Já o filme enquadra mais a história de John (dono do Marley), sua família, seus conflitos, realizações pessoais e profissionais. E acho que essa diferença é o que deixou o filme bastante agradável e não apenas mais uma história de cachorro como tantas a que já assistimos ou evitamos assistir na "Sessão da Tarde".

Curiosidade sanada


Li, pela primeira vez, James Joyce. Não foi o famoso "Ulysses", e sim o "Um Retrato do Artista Quando Jovem". Não gostei da história, só posso dizer que matei a curiosidade de ler Joyce.

O autor irlandês, ícone da literatura do século XX, apresentou-me uma leitura um pouco tediosa. Em alguns momentos, me senti fora da história, porque, em vários momentos há a exposição de muitos personagens, que contracenam diretamente com o protagonista, mas que não foram apresentados ao leitor.


A obra conta a história de Stephen Dedalus, sua infância e adolescência, sua vida num internato e depois em um colégio jesuíta, seus conflitos com a família e, principalmente, com a religião.


É, na verdade, a própria história da vida de Joyce, um perfil de suas origens antes de se tornar escritor.


Preciso de coragem para ler Ulysses. Tomara que seja uma leitura mais agradável. Talvez eu tenha que me acostumar com a linguagem inovadora e cheia de experimentações desse consagrado escritor.

quarta-feira, outubro 29, 2008

Sem obrigação


Existem alguns livros que estão em nossa lista de leituras mas que enrolamos, enrolamos e nunca lemos. Na minha lista estava "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa. Há um mês, tomei coragem - e a palavra é coragem mesmo - para iniciar esta leitura que sempre considerei muito densa.

No começo foi difícil avançar devido ao complicado vocabulário do escritor, recheado de neologismos. Mas com o passar das páginas, tive a sensação de estar me ambientando ao "grande sertão" e à linguagem começou a se descomplicar.

Fiquei satisfeita de ter feito esta leitura só agora e não nos tempos do colegial, como leitura obrigatória para o vestibular. Nunca uma obra como esta pode ser considerada "leitura obrigatória", com observações acadêmicas sobre o estilo do autor, o que ele queria transmitir, o porquê da invenção de algumas palavras, o uso de regionalismos etc.

A obra realmente é um sofisticado material de estudo para literários e outros estudiosos, mas, para o leitor comum, deve ser uma leitura sem pressa, para contemplar cada momento da história que o jagunço Riobaldo nos conta: os lugares por onde passa, suas aflições, batalhas que enfrenta, sonhos, dúvidas em relação a existência do diabo, sua postura de liderança e, principalmente seu secreto amor por Reinaldo , o Diadorim, seu grande amigo e também jagunço. Diadorim é sempre tão misterioso, tão certo de suas decisões, o jagunço que não tem medo e que revela ao leitor seu grande segredo, mas só nas últimas páginas da obra.

Guimarães Rosa foi um sábio no uso das palavras e na descrição da essência humana. "Grande Sertão: Veredas" deve sim ser obrigatório para quem aprecia uma boa leitura. Uma leitura "desobrigada".

quarta-feira, setembro 17, 2008

Melhor amigo

Uma história de amizade entre dois garotos de nove anos: essa é a essência da obra "O menino do pijama listrado" (Cia das Letras), escrito por John Boyne. O ambiente é a Alemanha na II Guerra Mundial, por isso, essa não é uma amizade qualquer, como aquelas que nascem porque dois meninos são vizinhos, primos ou porque estudam na mesma escola. É uma amizade proibida entre um alemão, Bruno, filho de um soldado e um polonês, Shmuel, judeu, que está num campo de concentração com sua família.

Shmuel é, na verdade, o menino do pijama listrado, uma referência ao uniforme que todos os judeus são obrigados a usar no campo de concentração.

Bruno é muito inocente e não entende que seu país está em guerra e que seu pai está envolvido no sofrimento de milhares de judeus. Por conta do trabalho do pai, a família se muda de Berlim para uma cidade desconhecida, perto do campo de concentração onde, na visão de Bruno, são várias cabanas povoadas por pessoas de pijamas e separadas de sua casa por uma forte cerca de arame.

Ele não entende porque essas pessoas vivem lá, mesmo depois de conhecer Shmuel, seu primeiro e único amigo nesta cidade nova. Shmel conta sua história, mas Bruno não entende a dimensão da pobreza e do sofrimento do amigo. Apesar de sua inocência, o garoto alemão só sabe que não deve revelar esta amizade para a família que, se soubesse, o proibiria de ver o amigo.

Amizade, confiança e perdão: são essas três lições que o livro passa para o leitor. O viver de faz de conta de Bruno permitiu que ele conhecesse Shmuel, que apesar de pertencer a um universo totalmente oposto ao dele, era apenas seu amigo que vestia um pijama listrado.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Deveria ter comprado antes


Foi em 2005 que um professor da pós-graduação indicou para a turma o livro "Fama & Anonimato", do jornalista Gay Talese, quando comentava sobre estilos de redação ou outro assunto qualquer que não me lembro mais. Ele não deu muitos detalhes sobre a obra: para mim, o que ficou foi que o livro era voltado ao jornalismo literário e possuía um artigo sobre Frank Sinatra.

Sempre que ia a alguma livraria procurava "Fama & Anonimato", mas sempre o achava caro demais. Em sebos, nunca encontrava.

E não é que se passaram 3 anos até que eu encontrasse a obra, em bom estado e com bom preço, em um sebo em São Paulo localizado na mesma rua do meu trabalho? Não pensei duas vezes e comprei! Depois de terminada a leitura, senti que deveria ter comprado antes: primeiro porque, para um jornalista, "Fama &Anonimato" é uma pérola, com textos bem cuidados e escritos com profundidade e, para uma apreciadora de boas histórias, é uma obra inteessantíssima, que reúne uma série de artigos sobre pessoas comuns e sobre famosos, dentre eles, Frank Sinatra.

A história do cantor foi escrita sem que o autor tivesse conseguido conversar com ele. Talese traça o perfil de Sinatra apenas observando-o e conversando com as pessoas que vivem a sua volta, que frequentam os mesmos lugares que ele ou simplesmente com familiares. Ele descreve o cantor em seu dia-a-dia, na relação com seus funcionários e, o mais interessante, numa situação inusitada: "Sinatra resfriado é Picasso sem pintura, Ferrari sem combustível- só que pior. Porque um resfriado comum despoja Sinatra de uma jóia que não dá para pôr no seguro- a voz dele."

Roubou minha atenção também o texto sobre um redator de obituários do The New York Times que fazia pesquisas sobre personalidades e já deixava seus obituários prontos em arquivos, atualizando-os periodicamente. Sobre seu personagem, Talese escreve: ele confessa que, depois de ter escrito um belo obituário com a pessoa ainda viva, seu orguho de redator é tão grande que mal consegue esperar que a pessoa caia morta para poder ver sua obra-prima impressa".

Uma série de artigos do livro são dedicados a histórias de trabalhadores da construção da ponte Verranazo-Narrows, em Nova York. Talese conta com detalhes o cotidiano dessas pessoas, suas histórias de vida e a ligação que criaram com essa construção.
Os artigos foram escritos na década de 60, mas no caso daqueles sobre a construção da ponte, Talese foi, em 2001, reencontrar as pessoas com quem conversou na época para saber como elas estavam vivendo, o que tinha acontecido etc. Isso é relatado ao final do livro.

Gay Talese pratica a corrente que ficou conhecida nos Estados como New Journalism, um jornalismo com textos em profundidade, sem compromisso com o imediatismo. No Brasil, conhecemos o estilo como jornalismo literário. É contar um fato, sem fugir da verdade, utilizando recursos da narrativa de ficção.

Um jornalismo com essência, um jornalismo feito com dedicação, um jornalismo que consegue transformar um simples fato ou a vida de uma pessoa comum numa história brilhante. "Fama & Anonimato" é isso. Uma reunião de várias histórias brilhantes.

segunda-feira, julho 28, 2008

Este capítulo não é sério

Fui ao Museu da Língua Portuguesa para visitar a exposição que marca os 100 anos da morte de um de nossos maiores escritores: Machado de Assis.

A mostra "Machado de Assis: mas este capítulo não é sério" tem os ambientes divididos em capítulos e é um passeio que envolve o visitante pelas escritos do autor e, para mim, me fez relembrar das leituras que fazia para ingressar na universidade. Machado de Assis sempre marcava presença na lista obrigatória de livros dos vestibulares.

Posso dizer que "Dom Casmurro" e "Memórias Póstumas de Brás Cubas", apesar de aparecer na minha vida escolar como uma tarefa obrigatória, foram responsáveis por agradáveis momentos de leitura, incentivando inclusive a "experimentar" outros nomes da língua portuguesa.

Mesmo que Machado nos remeta aos tempos do colegial, o curador da exposição, Vadin Nikitin, explicou que a idéia da mostra é justamente apresentar um lado mais descontraído do escritor.

A exposição vai até 26 de outubro. É uma ótima oportunidade para conhecer e até mesmo homenagear este grande nome de nossa literatura. Saiba mais no www.museudalingiaportuguesa.org.br

domingo, abril 27, 2008

Calligaris na ficção




Foi uma experiência nova: comprar um livro e, logo em seguida, conseguir um autógrafo do escritor. Ver o autor tocar na edição que eu iria ler trouxe um quê a mais para a leitura, concluída no mesmo dia. Não que fosse uma obra extensa, mas acho que o entusiasmo era grande. A sessão de autógrafos aconteceu na Livraria Cultura, no dia 26 de abril.

A leitura do singelo, como o próprio nome diz, livro "O conto do amor" foi, como contei, bem rápida. A obra, do psicanalista e colunista da Folha de S. Paulo, Contardo Calligaris, é bem agradável e me trouxe uma surpresa: nunca tinha lido um romance dele, estava acostumada com suas colunas sobre temas do cotidiano e cultura que ele publica às quintas-feiras.

"O conto de amor" foi escrito a partir dos diários deixados pelo pai do psicanalista, escritos entre 1933 e 1994. É uma viagem pela Itália e pelas origens do personagem, o italiano Carlo Antonini, psicanalista que vive em Nova Iorque e que busca entender um pedaço do passado de seu pai após uma revelação feita antes de sua morte. O pai revela que, em outra vida, teria sido ajudante do pintor Sodoma (1477-1549), autor de afrescos no convento Monte Olivetto Maggiore. Antonini só resolve ir atrás do mistério e entender o que seu pai quis dizer doze anos depois.

No meio das investigações, Antonini refaz roteiros descritos por seu pai e descobre um caso amoroso vivido por ele em meio a II Guerra Mundial. Na busca de entender o mistério, Antonini se apaixona por uma especialista em arte, Nicoletta, e acaba revivendo situações vividas pelo pai. Consegue também entender um pouco da personalidade do pai, de quem a vida o deixou tão distante.

O leitor confunde a história com realidade porque, assim como o personagem, Calligaris também é psicanalista e vive em Nova Iorque. "O romance foi escrito a partir da questão 'o que eu queria fazer com os diários do meu pai?' Foi uma maneira de passar um tempo com ele na minha cabeça, de revê-lo", disse Calligaris à Folha.

Para quem gosta de Calligaris, a obra, além trazer um mistério para o leitor desvendar, traz traços da vida e personalidade do próprio autor, mesmo que escondidos sob o romance.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Ele também fica doente

Talvez tenha sido o momento de maior fragilidade na vida de Dráuzio Varella: ser acometido pela febre amarela. Todas as situações, desde o primeiro mal-estar até a serenidade de um doente que já não vê mais esperanças, passando por agonia e muita dor, são contadas detalhadamente pelo médico que se vê do outro lado - o do paciente.

Essa é a essência de mais uma das brilhantes obras de Dráuzio, "O Médico Doente". Viver o outro lado, passar dias internado em seu local de trabalho - o hospital - fez o médico entender o comportamento de muitos dos pacientes que ele já cuidou: "Sempre atribuí a dificuldades de descrever sintomas à falta de objetividade da maioria das pessoas ao falar da própria saúde. (...) O fato de ser médico há tanto tempo não me qualificava sequer para fornecer informações claras que pudessem auxiliar meus colegas a chegar ao diagnóstico".


Ele ainda descreve a reação da família e amigos, muitos deles médicos, que, apesar de tentarem, não conseguiam esconder de Draúzio o sofrimeno daquela situação.


É uma leitura rápida, que me deixou mais curiosa pelo recentes casos de febre amarela em Goiás. Mas o livro não se concentra na doença em si, mas na história de um conceituado médico, que se descuidou ao não tomar a vacina, apesar de suas constantes viagens à Amazônia. E isso é o que surpreende: o "doutor" também é suscetível a qualquer doença e também é capaz de se esquecer de cuidar de si mesmo.